Protegendo quem nos protege


Há anos, incrustrada no muro de uma mansão da Praia da Ferradura, reinava tranquila uma

imagem de Iemanjá. Entre as pedras irregulares de granito, uma pequena estátua podia ser vista num lindo altar protegido apenas por uma lâmina fina de vidro barato. Uma singela

homenagem feita pelo dono do imóvel para a divindade de origem africana, guardiã das águas de rios e mares. O orixá para quem muita gente joga flores e faz pedidos na virada do ano.


Primeira imagem quebrada



Segunda imagem colocada



Segunda imagem quebrada



Dias atrás, a vitrine do altar foi quebrada e a escultura destruída. E pelo jeito com muita

raiva pois só restaram pequenos pedaços. A notícia se espalhou e a revolta foi grande afinal,

muitos brasileiros guardam simpatia por Iemanjá. Mesmo entre pessoas que não seguem

nenhuma religião africana, não é difícil encontrar quem se diga filho (a) de Oxóssi, de Xangô ou de Ogum - o São Jorge da igreja Católica.


O arquiteto Hélio Pelegrino, que é amigo do dono da casa ficou chateado com o crime, sim,

é crime vilipendiar imagens religiosas, resolveu refazer a homenagem e comprou uma nova

escultura. Helinho refez o altar e colocou uma nova vitrine. Todas as pessoas que respeitam a fé alheia, que carregam dentro de si um mínimo de civilidade ficaram felizes ao saber que

Iemanjá havia voltado para proteger as águas daquela praia. Só que a paz durou pouco.

Novamente o altar foi vandalizado e como se quisesse dar um recado, o criminoso desta vez

ainda levou a cabeça do orixá. Decapitou-a para evitar a restauração.

Mas quem tem fé verdadeira não se abala nem desiste. Helinho voltou a refazer o altar e dessa vez colocou uma Iemanjá um pouco maior e vidro à prova de balas. Uma câmera de vídeo com luz infravermelha também foi instalada. Justamente no Mês da Mulher, quando duas mulheres foram barbaramente assassinadas em Búzios, a agressão a Iemanjá tem um peso ainda maior.



Imagem atual


O Brasil não era assim. Lembro com alegria das músicas de Clara Nunes exaltando as religiões de matriz africana. No Youtube é fácil encontrar clara nunes em vários clipes no

Fantástico. Programa de domingo a noite para todo o Brasil. Somos um país negro. Talvez o

mais negro fora da África. O sincretismo religioso viveu em paz durante anos. Foi somente com o crescimento das igrejas evangélicas neopentecostais que o ódio começou.


Chega de ódio. Cada um que curta sua fé e respeite a alheia.

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