O homem pássaro


O italiano Claudio Carlini, natural da província de Ancona, veio morar no Brasil porque se apaixonou por uma bella ragazza mineira. Casou em Minas Gerais (a história do casamento vale outra matéria), e como já era formado em voo livre passou a praticar o esporte a partir do topo da Serra da Moeda, que fica localizada a 34 km de Belo Horizonte entre as cidades de Moeda e Brumadinho. Com cerca de 1.500 m de altitude, a Serra da Moeda é para os praticantes de voo livre, o que o Havaí é para os surfistas.


Em Búzios, onde o casal é dono da Pousada das Rosas, na rua Germiniano José Luís, no Centro, Claudio passou a fazer seus voos a partir do topo do Morro das Emerências, que não tem altitude igual a Serra da Moeda (nosso pico mais alto tem apenas 160 metros) mas que serve muito bem para a prática de seu esporte favorito depois do futebol.


“O voo livre é um esporte muito sério. Requer conhecimento, técnica e muito respeito as regras e a natureza. Sou piloto desde 1995. Aprendi na Itália com o instrutor Claudio Spinelli. É um esporte maravilhoso e perigoso. Tem que ter foco, coragem, responsabilidade e medo. O medo nos preserva. Voo livre não é prova de coragem”.


Antes de vir morar em Búzios e abrir a pousada, Claudio já sabia que havia um point de voo livre na cidade. Como todo praticante do esporte, havia mapeado todo o território nacional. O que não é difícil, pois os clubes de voos têm páginas na internet. Além de Búzios e Minas Gerais, Claudio já voou em Pernambuco e Arraial da Ajuda. Para quem é leigo no assunto, as montanhas mais altas devem proporcionar melhores voos, mas nem sempre é essa a principal característica que se busca.

“O voo do Rio de Janeiro, partindo da Pedra Bonita e pousando na Praia de São Conrado é mais panorâmico. Tecnicamente, o voo em Búzios é mais instigante. O problema é que sempre venta forte e não dá para voar muitas vezes. A topografia das Emerências cria um efeito de vórtice partindo do pé do morro. Mas dá para praticar as técnicas do esporte pois as características de ventos e temperatura variam muito. Os ventos predominantes são Leste/Nordeste e pousar em Tucuns é uma maravilha pois a praia é imensa e quase sempre deserta. Quem voa em Búzios voa em qualquer lugar”, continuou nosso italiano voador.


Atualmente, por determinação do DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo) quem salta de Tucuns só pode voar entre as praias de Geribá e do Peró - em Cabo Frio. O recorde foi conquistado anos atrás e o piloto foi até a cidade de Rio Bonito. Não é a altura da rampa que permite ou não voos mais longos e sim, as correntes térmicas e as habilidades do piloto.



A rampa de voo livre de Tucuns oferece dois acessos: uma trilha através do bairro de José Gonçalvez, que não é tão íngreme e um pouco larga, e que permite (com autorização do IBAMA) a subida de motos e até de pequenos carros. Esse caminho é bastante usado por trilheiros. Já a outra trilha, a do canto direito da Praia de Tucuns é bastante íngreme, estreita, e tem mata quase fechada. Mesmo com tanta dificuldade, essa picada é a usada pela maioria dos pilotos pois como o pouso é sempre naquela praia, é lá que ficam seus carros e motos.


Para quem sonha praticar voo livre algumas informações: o equipamento completo que incluem parapente, paraquedas de emergências, capacete, GPS, mosquetões, altivariômetro, rádio comunicador e selete que é a cadeirinha que ajuda na decolagem e no pouso, custa em média, uns 20 mil reais. Preço de equipamento simples. Em Búzios já tivemos professor de voo livre, mas no momento não encontramos nenhuma informação se ainda existe. Maiores informações na página da Associação Brasileira de voo livre, www.cbvl.esp.br.


É lindo, mas pode melhorar

A rampa de voo livre de Tucuns fica na parte mais alta da Serra das Emerências, que por sua vez, fica dentro do Parque Estadual Costa do Sol, que vai da praia da Azeda, em Búzios, até a Restinga de Jacarepiá, na cidade de Saquarema. Criado por lei em 18 de abril de 2011, o Parque tem cerca de 9.840,90 hectares é e dividido em quatro setores. Cada qual composto por uma ou mais áreas distintas, e abrangem os municípios de Búzios, Cabo Frio, Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia, Araruama e Saquarema. Deve ser o primeiro parque ecológico fracionado do mundo.

Nas Emerências, o parque está bem preservado e muito se deve aos frequentadores do local. Geralmente pessoas interessadas em turismo ecológico e também dos praticantes de voos livre. Eles funcionam como fiscais da natureza. Por isso tão importante seria uma pequena intervenção dos poderes públicos (Prefeitura, INEA, IBAMA) para melhorar a chegada de turistas e de pilotos ao topo do morro. Nada de grandes intervenções. Apenas pequenas ações de melhorias pois jamais teremos, ou desejamos turismo de massa naquela área.


“Penso que seria interessante investir naquela área como destino turístico. Mas nada de abrir estradas ou algo parecido. Fica nas Emerências o mirante mais lindo da cidade, mas seu acesso deve ser restrito. Quanto a dificuldade das trilhas, para quem pratica o voo livre não representa nenhum grande problema. Gostamos desse contado com a natureza. Pode melhorar um pouco, mas nada que mude os aspectos selvagem do lugar. Além da beleza da paisagem, o que mais gosto é de encontrar animais. Já vi Bicho-preguiça, macacos e muitos lagartos. Cobra nunca vi. Ainda bem, pois morro de medo de cobras. Dá para fomentar o turismo no local. Com respeito a natureza e obediência as regras do Parque. Turismo ecológico é o que mais cresce no mundo e dá para conciliar preservação e exploração”, finalizou Claudio Carlini massageando o joelho machucado resultado de um pouso um pouco atrapalhado no último sábado.


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